
Quem conhece o trabalho e a história de Kiko Loureiro sabe que, a despeito de ser hoje um dos principais guitarristas de rock do Brasil e também reconhecido internacionalmente, suas raízes musicais vão muito além dos powerchords e da distorção. A música brasileira, a música latina, o jazz e a música clássica sempre marcaram presença em sua trajetória e uma pequena mostra disso já havia aparecido em “No Gravity”, primeiro disco solo de Kiko lançado no início de 2005. Nesse trabalho instrumental apareciam, aqui e ali, várias referências a esse imenso background, mas totalmente envoltas pelo clima e pelo peso do rock que consagrou o guitarrista.
Agora, as coisas ficaram mais claras e evidentes. Pode-se dizer escancaradas. Acompanhado por um trio que tem à frente o pianista e compositor cubano Yaniel Matos, Kiko está soltando seu segundo trabalho solo, o Brasileiro, “UNIVERSOINVERSO”, um disco novamente instrumental e que presta um verdadeiro tributo às suas raízes musicais brasileiras. “Sempre acreditei que música é uma coisa única e que dividi-la em estilos faz com que percamos a noção de sua imensidão e da grande contribuição que ela nos dá para vivermos melhor”, é a forma como ele define sua arte. E é a expressão mais completa desse pensamento que surge em “UNIVERSOINVERSO”.
Acompanhado por Yaniel, Cuca Teixeira (baterista que toca na banda de Maria Rita) e Carlinhos Noronha (baixista dos Demônios da Garoa), e contando com a participação especial do percussionista Maurício Alves (Mestre Ambrósio), Kiko surpreende com uma música ao mesmo tempo simples e elaborada. Gravado em apenas três dias, “UNIVERSOINVERSO” tem seis composições de Kiko e quatro de Yaniel e é um mix de ritmos brasileiros, latinos e jazz com um sutil tempero de rock que desafia as categorizações – alguns optaram por chamar de MIB, música instrumental brasileira, mas, de todo modo, trata-se de algo sem similar em termos de Brasil. Assim, aqui é possível ouvir samba (sim, Kiko Loureiro tocando samba!), baião, jazz, buleria (ritmo espanhol muito usado na música flamenca) e até valsa brasileira, sempre com aquela interpretação única que só um guitarrista de rock consegue impor, mesmo com um instrumento sem efeitos ou distorções.
Kiko diz que o disco vai funcionar como “um universoinverso para um roqueiro, talvez, mas um universo criado para mostrar a interação do espírito livre do jazz, de Cuba, do Brasil, do moderno, do rock.” E vai, também, mostrar por inteiro o universo musical que fez de Kiko Loureiro um dos músicos mais completos da atualidade.
Antonio Carlos Monteiro
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