Diário

Apesar da decisão de concretizar este trabalho surgir de repente, fazer este “som” apresentado no “Universo Inverso”, este estilo voltado para a nossa música é um sonho bem antigo. Sempre caminhei um pouco por este universo musical da MPB, Jazz e música latina. Criei amigos deste meio, participei de jams, eventos etc etc.
Há cinco anos atrás, em um bar de São Paulo chamado Blem Blem conheci o Yaniel Matos. Ele havia chegado de Cuba um dia antes. Estava ali meio perdido sem conhecer ninguém.  Fizemos uma amizade e no dia seguinte ele foi em casa para tocarmos juntos. Sempre fui muito interessado pela música cubana e os maravilhosos músicos que lá nasceram.  Na época ele formou um grupo de “latin” para tocar na Vila Madalena.  Eu já estava tocando este estilo de fusion com um trio que tinha com o batera Douglas Las Casas e o baixista Ximba Uchiama. Assim o Yaniel me chamou, junto com o Doulgas para participar do grupo. Ali a amizade se solidificou. O som durou pouco, alguns meses apenas, e eu nem participava sempre, pois o Angra estava bem ativo na época.  Na medida do possível procurávamos nos encontrar para tocar. O Yaniel participou do Temple of Shadows do Angra tocando violoncelo. Ele estava empolgado com heavy metal depois que presenciou um show do Metallica em um festival na Europa.
Neste ano de 2006 quando eu já estava com as músicas compostas para o novo cd do Angra “Aurora Consurgens” resolvi procurar o Yaniel para colocar em prática nosso sonho antigo: Gravar algo juntos.

 Como normalmente as composições saem, pelo menos para mim, sem muito critério de estilo, em meio às composições para o Angra, criei outras idéias que eram bem mais brasileiras e jazzísticas. A maioria nasceu no piano, instrumento que me sempre desafia, mas que é muito bom para compor.

 Falei com o Yaniel e obviamente ele gostou da idéia de gravarmos. Já conhecia várias das músicas dele, portanto pedi que colaborasse com umas quatro. Já até sabia quais eram as mais de acordo com o que eu tinha concebido.
Para mim o cd seria uma celebração da música latina caribenha com a brasileira. Ele como cubano amante do jazz e eu como brasileiro amante do rock. Assim sendo teríamos vários estilos para misturar e explorar.

Para juntar o quarteto já pensei imediatamente no Cuca Teixeira. Ele é o melhor baterista que temos hoje em dia aqui no Brasil.  Eu sabia que precisava contar com um batera preciso, musical e super experiente que aprenderia tudo rápido e gravaria em um altíssimo nível sem maiores preocupações.  Fui a casa dele, levei as partituras e falei do projeto. Ele aceitou na hora. Já nos conhecemos há pelo menos uns quinze anos, mas nunca tínhamos feito algum trabalho junto. Agora era a hora!  Pedi para o Cuca sugerir o baixista, pois sei como é fundamental o entrosamento entre batera e baixo. Ele na hora falou do Carlinhos Noronha.   Com o Carlinhos eu também já havia tocado junto em algumas jams.  Sempre fiquei impressionado com a precisão e groove que ele tem. É muito experiente já gravou e tocou com muitos artistas paulistas. Liguei para Carlinhos no mesmo dia e em um ou dois dias ele já estava a par do projeto, com entusiasmo e com as partituras na mão.
Até este período eu estava tranqüilo, pois não sabia quando seria a hora de colocar em prática o projeto. Sabia apenas que em breve iria começar a ensaiar com o Angra para o Aurora Consurgens...

Uma coisa que tinha me animado a fazer este projeto também foi o fato de eu ter recebido ótimas críticas das músicas mais brasileiras ou com violão que eu gravei no meu primeiro álbum solo, “No Gravity”.  A gravadora do Japão que trabalha com o Angra e que lançou o “No Gravity” me incentivou a mostrar para o público um cd inteiro deste estilo. Por isso já antes de começar a gravar sabia que o cd seria lançado no Japão, o que me dava uma segurança a mais para poder produzir o cd.

O “problema” que surgiu, ou talvez o grande empurrão, foi que a gravadora me comunicou de repente que seria melhor lançar este meu cd junto como o cd solo do Edu Falaschi (vocalista do Angra) e com o Karma (banda do Felipe Andreoli-Angra). Assim para a gravadora seria bom fazer toda a promoção dos três cds juntos. A questão era que eu teria um mês para gravar, mixar, fazer capa, fotos, registrar as músicas, contratos e tudo que envolve a produção de um cd. Fora isso ainda teria que fazer os ensaios com o Angra. Tinha duas opções, encarar ou desistir...  Fui em frente. Chamei a todos do quarteto e começamos a ensaiar. Não foi fácil, pois todo por serem ótimos músicos tem sua vida profissional já bem agitada. Fizemos uns 5 ensaios apenas.   Vale falar que no caso deste estilo de música e este nível de músicos os ensaios não são tão necessários. A música já flui deste a primeira vez que é tocada. É tudo uma questão de achar a atmosfera certa de cada música e pronto.

Neste meio tempo, tive que procurar um estúdio que pudéssemos gravar ao vivo. Normalmente os estúdios novos não têm esquema para gravar ao vivo, além disso, precisava achar um estúdio com um bom piano, o que faz as coisas complicarem ainda mais.  O mais indicado foi o “Nosso Estúdio”. Um estúdio que está acostumado a gravar este estilo de música há décadas. Gravou praticamente todos os cds do Hermeto Pascoal entre outros famosos da MPB.   Marquei três dias no estúdio. Não dava para ser mais, pois o Cuca iria para os EUA com a Maria Rita. Então tínhamos que gravar tudo em 3 dias, o que não é nada fácil.  Como agravante e para complicar mais, o Angra tinha um show no primeiro dia de gravação. O Show foi em São Paulo mesmo, no Playcenter, então no meio da gravação eu sairia, faria o show e voltaria. Loucura, mas não havia outra maneira.

 Chamei também um grande amigo para ser o técnico, Guilherme Canaes. Ele trabalhou com o Angra na turnê do Holy Land e Fireworks. Confiança total nele.
Poderia dizer que foi tudo muito estressante, mas a música sempre compensou tudo. Os ensaios foram ótimos. Fazia na minha casa, chamava alguns amigos para assistir e deixava a coisa ficar bem tranqüila para a música fluir bem espontânea e verdadeira. Uma interação entre quatro músicos de experiências diferentes e escolas diferentes. Por isso no cd é possível achar em vários lugares o símbolo do reciclável alterado para 4 setas.  Uma constante troca e reciclagem de idéias e comunicação musical entre os quatro músicos.
  No dia anterior das gravações levamos o equipamento de guitarra para o estúdio. Dia primeiro de maio, dia do trabalho, feriado e ainda por cima um domingo, seria um dia bem tenso e de muito, mas muito trabalho. Todos chegaram bem cedo junto com o Rodrigo Fantoni e Marcos Limone (técnicos do Angra) para montar e microfonar o som. Todos sentados em círculo de uma forma que pudéssemos nos ver enquanto tocávamos, porém com a preocupação do som não poder vazar um no outro.  Pelo fato do estúdio ser muito bom e contar com equipamentos de primeira, com uma bela SSL somado à experiência do Canaes, o som não foi assim tão difícil de tirar. O problema era sempre o quanto à bateria vazava no microfone do piano. Depois de alguns testes e gravações de pequenos trechos começamos a gravar para valer.

Escolhemos a música “Samba da Elisa” que era a primeira que tínhamos ensaiado e é uma música que o Yaniel gosta bastante.  Para todas as músicas o esquema era o mesmo. Tocávamos umas três vezes a música inteira e depois íamos todos para a técnica escutar o resultado. Se achassemos que umas das três estava legal, pronto, passávamos para a próxima música. Às vezes em alguma música, nós tocávamos mais uma vez. Sempre depois de escutar os “takes” podíamos saber o que estava faltando. Daí na próxima tentativa corrigíamos o problema. Na realidade, se alguém fizesse um erro grande já parava no meio da música, pois nenhuma música poderia ser emendada. Todas foram tocadas do começo ao fim, mesmo porque o sistema de gravação do estúdio não era prático para emendar.

Para quem não sabe, este esquema de gravação é completamente fora do padrão utilizado hoje em dia. Hoje temos a possibilidade de o computador corrigir qualquer coisa. Porém a intenção deste cd era manter a espontaneidade em 100%. Totalmente ao inverso do que rola no heavy Metal ou outros estilos de música. Realmente um universo ao inverso.


A minha saída para o show do Angra foi incomum realmente. Sai do estúdio neste clima que vocês podem ver nas fotos, fui direto para o camarim, troquei de roupa, entrei no palco, toquei 1:30h de metal no volume máximo para umas 8.000 pessoas que estavam no Playcenter. Saí de volta ao estúdio e cheguei antes dos caras que tinham saído para comer. Foi realmente um choque de estilo. Foi quando eu vivenciei ao máximo o quanto estes universos são inversos. Para mim é muito bom, pois os dois lados me alimentam como músico. Acredito que este passeio por estilos diferentes me deixa sempre motivado para tocar mais e mais.

Os dias seguintes foram mais ou menos a mesma coisa, sem a loucura de ter que ir para um show. Foi mais tranqüilo. O período de gravação era de umas 8 horas. Nada acima disso, pois a partir de uma certa hora a cabeça já não funciona tão bem para criar música.
No terceiro dia quanto tudo havia acabado pedi para o Yaniel tocar a música “Recuerdos”. Esta música finaliza o cd e finaliza todo stress da gravação. Não estava muito nos planos grava-la. Eu nem estava com o violão lá no estúdio. Ele ligou o metrônomo e saiu tocando a harmonia imaginado o violão fazendo a melodia... Alias, fora esta música, todas as outras foram gravadas sem metrônomo. O Cuca contava o tempo e saímos tocando. Isso impossibilita ainda mais qualquer tipo de emenda ou regravação.

Saí com uma pré-mix da gravação no terceiro dia. Alguns dias depois fui para o Via Musique estúdio ouvir o resultado a refazer algumas guitarras que não tinha gostado.
Ouvindo o resultado da gravação achei que tinha ficado muito jazzístico, pois nem todas as músicas eu fiz com distorção.  A “Anastácia” e “Arcos da Lapa” gravei com som limpo, e ouvindo o resultado achei que tinha ficado meio “mole” a parte da guitarra, assim no estúdio Via musique coloquei umas guitarras com distorção. Refiz as coisas da forma mais espontânea possível para deixar o mesmo clima do dia. Também no Via Musique gravei o violão da Recuerdos. Foi das músicas mais difíceis. Não conseguia tocar com aquele clima de trabalho terminado bem tranqüilo e calmo que o Yaniel gravou. Lembro que foi na semana do ataque do PCC em São Paulo. Ir para o estúdio à noite naquele clima pesado e gravar esta música não foi fácil. Tentei gravar e não consegui. Tocava sempre mais rápido e stressado comparado com o piano. Dois dias depois voltei e consegui gravar. Atingi o mesmo estado de espírito de tranqüilidade. Algumas coisas foram feitas com o Thiago Bianchi e outras com o Amauri Chamorro.
Também nesta mesma semana gravei umas percussões. Senti que precisava de alguns efeitos de percussão. Chamei o Maurício Alves do Mestre Ambrósio. Ele é um grande percussionista. Gostei tanto que chamamos ele para fazer o Aurora Consurgens também.

O Thiago Biachi juntou o material e começou a mixar. Fez a princípio sozinho, pois eu estava na Europa tocando no festival “Gods of Metal”. Ele ia fazendo uma prévia da mixagem e me mandava por e-mail. Coitado! Recebeu os e-mails mais longos da história. A idéia era ele deixar quase pronto e quando eu voltasse faríamos juntos os acertos finais para masterizar.

Antes de ir para a Europa fui um domingo com o Marcelo Rossi no Memorial da América Latina para fazer as fotos da capa. Escolhi este lugar justamente por significar o que o cd é. Uma celebração da música latina baseada em São Paulo. Toda as fotos foram feitas lá. Até a foto de fundo vermelho que é a porta do Parlamento Latino-americano.
Fiz a foto a fui para a Europa.

Mandei a pré-mix para a gravadora Japonesa. Eles ouviram o som e perguntaram cadê a bossa nova de violão? Daí eu falei: Não tem, precisava? Eles tem muito este conceito da música brasileira. Bem, tinha que tirar da manga uma música de violão... Fui para o estúdio e compus na hora uma tema meio choro meio brasileiro.  O Thiago me ajudou muito a concretizar esta música, pois estava tudo muito em cima de hora. Chamou o Henrique do bandolim e o ultra-histórico Bocato para tocarem bandolim e trombone. Assim a música seria autenticamente brasileira. Nem pude assistir a gravação do Bocato, pois já estava na Europa. Como a música estava fora do conceito do quarteto ficou como bônus track só para o Japão.   A música chama-se “Espera aí”. Afinal estava tudo pronto quando ela quis entrar no cd...

Eu pensei que os problemas tinham acabado... Claro que não.  Com tudo pronto e os dias contados mandei o áudio para a Alemanha fazer a master com o mesmo cara que faz os cds do Angra, o Jurgen. Precisa um cara de total confiança, pois eu não teria tempo de ficar refazendo caso não gostasse. Quando recebi o cd para aprovar a master, percebi que o metrônomo da música “Recuerdos” dava para ouvir. Como a música é bem leve e calma nos momentos de respiro o metrônomo do fone do Yaniel era captado pelo microfone do piano.

Tinha um dia para resolver o problema. Chamei o Cuca e fomos para o estúdio colocar uns efeitos de batera, pratos, vassoura etc assim o metrônomo ficaria inaudível. Gravada a batera, o Thiago fez a mixagem no mesmo momento e enviamos para remasterizar. Pronto, depois de masterizado foi enviado para o Japão, só faltava a arte.  Como não bastasse a correria era a semana de jogos do Brasil na copa... Brasil parando e eu correndo contra o tempo, pois no Japão não tem essa de esperar o jogo passar. O Marcelo e o Edu Carranque fizeram e finalizaram a arte em tempo recorde. Eu ficava na frente deles ajudando a decidir como seria feito e dando as idéias no mesmo momento. Acho bem melhor trabalhar assim, sob pressão. Gostei muito do trabalho deles. Ficou uma arte bem bonita, do jeito que eu queria. Fora do conceito de heavy metal. Onde a pessoa que me conhece como guitarrista de rock já saberia pelo visual da capa e dos nomes que o cd seria algo diferente do esperado.

 Lembro que a última cena da produção deste cd foi eu na Fedex as dez da noite véspera de feriado implorando para o cara não fechar, pois o Edu estava trazendo o cd com arte. Precisava ir para o Japão naquele dia.  Se o carinha do Fedex não esperasse (o que não fez... tive que busca-lo no estacionamento do shopping) perderia a data de lançamento.
 Na realidade é sempre assim, qualquer cd produzido tem um milhão de histórias por trás. É sempre um coisa muito difícil de fazer.  Demanda uma energia, concentração, força de vontade gigantesca e muita organização. Ainda mais se for um cd solo, onde não dá para dividir as tarefas com outras pessoas...

Estou muito feliz com o resultado, com o som, com as músicas e com o respeito que os fãs mais “tru metal” estão recebendo.   Todos tem compreendido que um músico tem que ser obrigatoriamente muito mais do que ele aparenta na sua banda. O músico tem que ter uma profundidade musical para assim ser criativo e inovador por muito anos. É isso que eu busco... Sempre a minha verdade.

Grande abraço
Kiko Loureiro

   
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